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O vencimento de medicamentos representa a principal fonte de perdas operacionais nas farmácias e drogarias brasileiras. Dados da Pesquisa Abrappe 2025, realizada pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe), indicam que 78,98% das quebras operacionais do segmento estão associadas à validade dos produtos.
Em 2025, o varejo farmacêutico registrou perda total equivalente a 1,24% do faturamento, índice próximo aos 1,25% contabilizados em 2024 e inferior à média de 1,65% observada no varejo brasileiro. Desse percentual, 0,75 ponto percentual corresponde às quebras operacionais.
Considerando o faturamento aproximado de R$ 241,6 bilhões alcançado pelo varejo farmacêutico em 2025, conforme levantamento da consultoria IQVIA encomendado pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a aplicação dos índices da pesquisa resulta em uma estimativa de aproximadamente R$ 1,4 bilhão em perdas anuais provocadas por medicamentos vencidos.
O valor é uma projeção estatística obtida a partir dos índices da Pesquisa Abrappe e do faturamento do setor, não correspondendo a um montante diretamente auditado pela Abrappe. Pela mesma derivação, os vencimentos representariam cerca de 48% da perda total do varejo farmacêutico, considerando não apenas as quebras operacionais.
Estoque e planejamento estão entre os principais pontos de atenção
As perdas relacionadas à validade podem estar associadas a diferentes etapas da gestão de estoque. Entre os fatores envolvidos estão compras superiores à demanda, falhas na previsão, excesso de cobertura, baixa velocidade de venda, problemas na composição do sortimento e ausência de acompanhamento sistemático de lotes e prazos de validade.
Também estão relacionados ao problema erros na rotação do estoque e pouca integração entre os setores de compras, supply chain, operação e prevenção de perdas.
A decisão de compra exerce influência direta nesse processo. Condições comerciais vantajosas podem gerar perdas quando a quantidade adquirida supera a capacidade de venda da farmácia antes do vencimento dos produtos.
Controle deve começar antes da chegada dos produtos
A prevenção das perdas exige acompanhamento contínuo desde o planejamento da compra até a comercialização. O processo envolve planejamento, aquisição, recebimento, armazenamento, monitoramento, adoção de medidas corretivas e mensuração dos resultados.
Entre os mecanismos de controle está a definição de períodos preventivos para produtos próximos do vencimento, levando em consideração o giro de cada item. A análise deve relacionar prazo de validade, estoque disponível, velocidade de venda e cobertura.
Assim, produtos com o mesmo prazo de validade podem apresentar níveis de risco diferentes dependendo da quantidade armazenada e do ritmo de comercialização.
A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 44/2009, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), também estabelece diretrizes relacionadas ao controle de produtos próximos do vencimento. A política adotada pela farmácia deve estar prevista em seus procedimentos internos, incluindo o Manual de Boas Práticas e o Procedimento Operacional Padrão (POP).
A regulamentação também determina a verificação da validade no momento da dispensação e estabelece regras específicas para a destinação de produtos próximos do vencimento.
Sistemas podem antecipar produtos sob risco
O uso de tecnologia permite ampliar o acompanhamento dos estoques e antecipar situações que poderiam resultar em perdas. Sistemas de gestão capazes de rastrear lote, validade, estoque, cobertura e velocidade de venda podem emitir alertas antes que o medicamento efetivamente expire.
Recursos analíticos e de inteligência artificial permitem aprofundar esse acompanhamento ao relacionar o prazo de validade com o ritmo de saída dos produtos. Dessa forma, é possível identificar a quantidade de unidades com possibilidade de não serem comercializadas dentro do período disponível.
Tecnologias como RFID e o Código 2D da GS1 também podem contribuir para o controle e a rastreabilidade dos produtos, oferecendo informações para decisões relacionadas ao estoque.
Indicadores ampliam controle sobre o estoque
O acompanhamento das perdas não deve se limitar aos medicamentos que já venceram. Entre os indicadores utilizados para avaliar a situação estão perda total sobre vendas, quebra operacional sobre vendas, perda por vencimento sobre vendas, vencimento sobre quebra operacional e valor financeiro dos produtos perdidos.
Também podem ser monitorados estoque próximo e em risco de vencimento, cobertura, giro, aging, SKUs sem venda ou com baixo giro, transferências preventivas entre lojas, recuperação por devoluções quando aplicável e reincidência de SKUs com vencimento.
A Pesquisa Abrappe 2025 registrou ainda acurácia quantitativa de 97,39% nas farmácias pesquisadas. A ruptura alcançou 11,17%, sendo 7,27% comercial e 3,90% operacional.
Os dados evidenciam a coexistência de dois problemas de estoque: produtos que permanecem armazenados até o vencimento e, ao mesmo tempo, itens que deixam de ser vendidos por indisponibilidade.
Prevenção depende de ações ao longo de todo o ciclo
O controle pode começar na previsão de demanda, com definição de estoques mínimo e máximo, revisão da cobertura, avaliação do histórico de vendas e da sazonalidade e controle de compras extraordinárias. A negociação com fornecedores também pode considerar os prazos de validade oferecidos.
No recebimento, a conferência de lote e validade deve ser acompanhada da definição de um prazo mínimo aceitável. Essas informações precisam ser registradas corretamente no sistema e utilizadas na organização do estoque, priorizando a saída dos produtos com vencimento mais próximo.
À medida que os produtos se aproximam da validade, alertas preventivos podem orientar medidas como redução ou bloqueio de novas compras, identificação de itens sem venda ou de baixo giro, transferência entre lojas e negociação de devoluções com fornecedores, quando prevista em contrato.
A gestão contínua inclui ainda a análise das perdas em valores e percentual das vendas, identificação dos principais itens responsáveis pelos vencimentos, investigação das causas de ocorrências recorrentes e acompanhamento por loja, categoria, SKU e fornecedor.
A manutenção de procedimentos formalizados e o treinamento das equipes também integram o processo de prevenção, permitindo que as ações sejam executadas de forma padronizada e acompanhadas por responsáveis definidos.